2 de abr. de 2009




As mesmices globais



Duas catedrais, uma em frente à outra. As duas lotadas. Música ambiente, harmonizavam seus espaços. Em uma delas, pessoas silenciosas, que na penumbra meditam, dormitam, cochicham. O que cochicham? Diante de uma pequenina imagem barroca, do altar lateral da velha catedral cinzenta, a mulher chorava de pé, copiosamente. Entre soluços, rezava alto. Pedia pelo marido que se foi. Será que morreu ou dela desistiu? A velha catedral já era cinza nos tempos juvenis de minha mãe, quando um lambe-lambe a fotografou fogosa.
Na outra catedral à frente, seus fieis consomem. Na calçada em frente da outra catedral, mulheres gorduchas oferecem alho aos transeuntes. “Alho porro”, gritam! Madames reluzente, - parecendo de cera ou plástico – compram. Compram por pena da negra gorducha.
No outro lado da rua, eram oferecidas velas coloridas. Atravesso a avenida entre pedintes mal cheirosos da escadaria, no canteiro central jogados, em baixo de árvores frondosas.
Fortes seguranças espantam o pipoqueiro teimoso, que “a los pasitos” fica sempre mais perto da porta da outra catedral. Belíssimo prédio neoclássico. Todo reformado. Ou melhor, a fachada. A casca. Aquilo que os bancos fazem com os antigos prédio de históricas capitais. Salvam as cascas. Dentro, tudo é linha reta. A mesmice pobre da reta. TOM é a razão social do churrasquinho que inferniza os passantes com seu cheiro graxoso e fumacento. O empreendedor preferiu a sombra rala da sina-sina de minúsculas flores amarelas em frente das duas portentosas catedrais.
As duas tem a mesma missão cruel: criar atmosferas próprias em vista de acalmar a ansiedade humana. Ansiedade: a dor silenciosa que vem de dentro da alma, de suas entranhas. Dor, que não para no seu latejar. Desejo inexplicável, incontido de ir não se sabe pra onde. Desejo de comer não se sabe o que. Gastura que ninguém explica. Vulcão adormecido pelos produtos oferecido no interior das velhas e das modernas catedrais. Angustia que se re-volta enfurecida, desconsolada em solidão, em busca de novos desejos incontidos.
O templo do consumo seduz. Seduz multidões. Os que estão dentro e os que estão fora dele. Os que passam na porta são atraídos pelo seu cheiro, pela sua luz. Lá dentro tudo é luz. Luz intensa de fragrância suave. Os sentidos já foram todos ludibriados pelas mídias poderosas, que silenciosamente estudaram as raízes da solidão humanas. Indivíduos, grupos, são levados para dentro dele por suas próprias pernas, ou encanto de sereia.
Outras multidões ficam fora, olham e sonham desejosos de também um dia as mercadorias estejam ao alcance de suas mão, para também manipulá-las e descartá-las. O fetiche se constitui pela sua inatingibilidade. Quanto mais distantes se apresenta, mais desejado são. Os ditadores de ontem e de hoje, servem-se ainda destas estratégias, para se perpetuarem na arte de serem adorados. Uma vez bolinadas, conhecida sua materialidade, o encanto fenece. De forma inteligente os sistemas criam outros, e outros tantos para continuar a ópera.
A Idade Média mostrou-se pródiga na produção de artefatos precisos em vista da manutenção do controle. Fragmentos de ossos apareciam em determinados lugares, e para lá multidões se encaminhavam. Enquanto isso não se questionava a ação escravista do senhor feudal, e dos poderes incontroláveis dos papas.
Novas e velhas mercadorias se revezam, com o mesmo objetivo. A estratégia de controlar a ansiedade humana é antiga. A musica ambiente suavemente toca, enleva a alma, aliciando aos outros fieis a se auto-controlarem através da mortificação da carne, suplantando - adiando - o desejo. O judaísmo suplantou o diferente. Às tribos ditas pagãs é imposto a pobreza monoteísta, unificando tudo, acabando com o diferente, com as diferenças e sacrificando a diversidade. Concentrado poder num só Deus, masculino e branco.
Na outra catedral, os mesmos apelos. Os sentidos se aguçam. A propaganda se encarrega de armazenar na retinas suas imagens. Uma luz intensa assanha o olho. O tato interpelado compulsivamente apanha o objeto do desejo. Das prateleiras ele descem. O carrinho recolhe. O ritual continua: gorduras, amidos, xampus, diet. Pilhas de papel higiênico despencam, os repositores engalfinham-se na organização impecável. Tudo na mais perfeita ordem, para a liturgia continuar.
Entre pilhas de um referido papel, e de latas de alimentos pra gatos, o jovem casal discute: “Tarado! Você estava olhando pra ela, me respeita”, e a contenda continua. Que desejo imenso de escutar detalhes da recaída ciumenta! Mas o medo da indiscrição é maior que o desejo de escuta do drama conjugal. Do incontido medo de ser trocado, de ficar só, com seus botões, no encontro radical consigo mesmo.
Na outra catedral o sino toca. O agudo suave toma conta de tudo. Revoadas de pombos transferem-se de torres. Idosas senhoras lentamente sobem as velhas escadas cinzentas, diante das mãos estendidos de pedintes. Os poucos trocados ali jogados, alimentaram assassinos vendedores da pedra venenosa. Algumas olham, nem todas. Algumas trocam de lado na escadaria. Mas outras mãos lhes suplicam. Assim continua a romaria, na bendita escadaria. Dos que pedem e das que sobem.
Depois de visitar a velha e a nova catedral, cansado, pensativo sento no banco onde pretendo contemplar o fim de tarde fora da minha capital. O entardecer é ruidoso na Avenida Rio Branco. Incrível meu Deus! Mas reparo quase sonolento que quase tudo é a mesma coisa. Lá e aqui. As lojas, os outdoors, as sacolas, as bermudas que os jovens usam todas são iguais. Não seria muito difícil contar os modelos usados entre os homens, inclusive as cores são as mesmas. Todos mostram a marca das cuecas que usam. Tinha a sensação que logo-logo estaria vendo alguém só de cuecas caminhando na calçada. Na sua grande maioria usam fones de ouvidos. Muitos, muitos mesmos parecem que conversam sozinhos, ou caminham rindo pelas ruas. As tatuagens? Bom, as tatuagens, parecem que todas são exatamente iguais em suas cores são muito semelhantes, inclusive os lugares onde as aplicam, no pescoço, nas panturrilhas, no umbigo, nos seios. As tatuagens tomaram conta, marcaram o corpo inteiro. Como tropa de gado, caminhamos silenciosos, teleguiados por forças invisíveis poderosas que fazem moda, produzem cheiros, novos vícios.
Meditava comigo enquanto apreciava do lusco-fusco da cidade que não deixava de ser linda.
Enquanto isso, lia prazerosamente a Viagem ao Redor do Meu Quarto de Xavier de Maistre, escritor francês - 1763-1852, que entre tantas coisas lindas e duradouras que escreveu se perguntava se “O desejo eterno do homem não seria o de aumentar seu poder e suas faculdades, de querer estar onde não está, de recordar o passado e viver no futuro. Desejaria comandar exércitos, presidir academias, ser adorado pelas mulheres belas e formosas, e mesmo assim possuindo tudo isto ainda terá saudade dos campos e da tranqüilidade, invejará a choupana dos pastores. Seus projetos, suas esperanças naufragaram sempre de encontro às desgraças reais inerente à natureza humana. Nunca lhe será possível encontrar a felicidade’.








PEDRO FIGUEIREDO
Na cidade de Santa Maria
Nos 15 dias, que nos introduziram-nos no ano de 2009
As cidades catalizadoras


Catalizadoras é a característica das grandes cidades "matrizes" nas Regiões Metropolitanas. Como forças centrípetas gigantescas sugam dos municípios da periferia suas alternativas econômicas, de lazer e cultura. A estrutura econômica dos municípios que umbilicalmente se relacionam com elas sofre uma espécie de "atrofiamento" permanente e ascendente. É em direção a elas que se locomovem as pessoas para comerem sorvetes, comprarem alimentos, roupas, irem aos cinemas... Os que não conseguem ir por absoluta falta de condição financeira - a grande maioria - ficam na degustação das empoeiradas ou lamacentas ruas e becos de cidades cada vez mais desordenadas: para os homens nos fins de semana restam os bares de cachaça barata, para as mulheres, as igrejas pentecostais que se proliferam vertiginosamente. Uma parcela significativa, sem alternativas, degusta Silvio Santos, Gugu e o tradicional plim-plim da Rede Globo. Com o movimento de seus moradores em direção ao centro catalizador, vão com eles os recursos que não voltam, enfraquecendo a economia local, como uma espécie de mão única, sem retorno em benefícios para os contingentes da "periferia". Para as cidades periféricas sobra a tarefa de limpar o resíduo do consumo feito no centro catalizador. À elas cabe resolver os problemas dos rejeitados(as) pelo mercado de trabalho, adolescentes e jovens sem ocupação. São as cidades da periferia, que enfrentam o problema cada vez mais assustador de postos de saúde sempre superlotados de crianças e idosos, as grandes vítimas do sistema de exclusão. Como sangue-sugas gigantescos, os recursos adqridos com a venda da força de trabalho no centro catalizador são entregues na compra de alimentos aos grandes conglomerados do consumo, que se multiplicam em pontos estratégicos, asfixiando os pequenos e médios empreendimentos do comércio local.
Este debate é muito pouco colocado na agenda dos gestores locais que permanecem de forma isolada, tentando saídas isoladas. A gestão pública não acompanhou a dinâmica das mudanças estruturais dos últimos 50 anos. A compreensão tradicional da gestão das cidades esclerosou-se. Ainda não se consegue fazer uma leitura das profundas mudanças ocorridas. Inverteu-se completamente a situação campo-cidade. As cidades dormitórios da década de 80, vinte anos depois, tornaram-se cidades vivas, congestionadas de adolescentes e jovens que foram excluídos pelo mercado de trabalho, idosos e crianças que perambulam, suportando a ausência de programas e equipamentos que as incluam nas benesses que a cidade catalizadora oferece. Encurraladas por uma estrutura anacrônica de guetos - secretarias - onde cada uma olha para seu "feudo", a administração pública agoniza, oferecendo resistência em integrar ações e programas, buscando alternativas isoladas, desarticuladas, despotencializando recursos financeiros e humanos.
Os problemas vividos por uma só cidade da periferia do centro dinamizador são exatamente os mesmos vividos pelo conjunto delas. Faltam iniciativas que possam equalizar tempo, recursos, potencial humano e tecnologias disponíveis. A problemática do meio ambiente é um exemplo significativo deste flagelo. Em função dos problemas causados por apenas um município, todos os outros são vítimas diretas dos mesmos. O esgoto que faz de córregos e rios verdadeiras corredeiras apodrecidas, vai apodrecendo outros tantos que permanecem logo depois, contaminando a água, comprometendo lençóis subterrâneos, encarecendo-a no seu tratamento e gerando um número incontável de doenças desconhecidas, que logo depois vão desaguar na ampliação das filas dos postos de saúde do município periférico sem o recurso necessário e no olhar tristonho e frenético de seus habitantes. A ampliação do fenômeno urbano é uma realidade impossível conter. Somos seres coletivos por natureza. Precisamos criar espaços onde possamos ampliar o debate sobre os problema advindos desta nova realidade que nos provoca. Castells, no livro A Questão Urbana, afirma que "é necessário produzir, constantemente, novos conceitos, descobrir novas leis, à medida que as condições históricas mudam"(Castells, 1983, p. 13).
É nova na medida que não dominamos suficientemente os dados oferecidos por ela, as ferramentas conceituais que dispomos são insuficientes para dialogarmos com os novos fenômenos do urbano e com as necessidades de uma nova concepção do gerenciamento público. Temos a experiência da democratização do orçamento público através do Orçamento Participativo, e outras experiências semelhantes, que já é um avanço importante, porém os limites territoriais dos municípios impossibilitam ações articuladas, planejamentos estratégicos regionais... Várias temáticas poderiam tornar-se matrizes geradoras como questão relacionadas ao meio ambiente por exemplo, poderiam ser espécie de matriz articuladora que pensasse um desenvolvimento integrado, numa perspectiva solidária, rompendo territorialidades municipais falsas. Um desenvolvimento que seja sustentável no tempo e socialmente justo, com a distribuição equânime da riqueza gerada pelas grandes maiorias.
Outra matriz geradora poderia ser a cultura, através da reconstrução histórica dos nossos espaços urbanos, criando e mantendo equipamentos públicos que aglutinem gerações diferenciadas, proporcionando espaços de lazer, no cultivo do poético, do religioso como expressão da cultura, do artístico, com um programa integrado de ações, como o uso das escolas aos fins de semana, mutirões de limpeza de arroios, recriando o espaço e o tempo humano!
Assim também a questão do consumo, através de sua organização, não somente proporcionando a realização de feiras locais, mas centrais de abastecimento de caráter regional, com capacidade para atingir grandes contingentes humanos da periferia de nossas "cidades periféricas", interligados com centros produtores. Estes são alguns exemplos possíveis de articulação de ações de caráter regional. Pode-se começar um debate sobre o papel e a função das cidades catalizadoras e seus papéis no contexto regional, as responsabilidades a serem partilhadas, diante de sua capacidade de sugar potencialidades e recursos que poderiam ser distribuídos regionalmente.
O desafio é reunir forças, articular sujeitos sociais, constituindo coletivos regionais, que aglutinem movimentos organizados, Universidades, ONGs, poder público - com uma opção decidida pela radicalização da democracia e a inversão de prioridades, provocando espaços que articulem sociedade civil, iniciativa privada e poder público, onde se possam construir diagnósticos comuns de nossa territorialidade regional, construindo agendas comuns de eixos e ações integradas. Este desafio vai para além dos COREDES. É constituir um fórum regional de atores sociais permanentes, que estrategicamente possam planejar o Desenvolvimento Regional com sustentabilidade, na perspectiva da construção de um desenvolvimento, com parâmetros inclusivos, redimensionando concepções e valores até então hegemônicos.
pedro figueiredo
abril 2005
Texto originalmente publicado em

23 de mar. de 2009


Os cachorros de Dona Zezé


Com a porta entre aberta eu era esperado no 3ºandar. Entre a porta e seu batente aparece uma pálida senhora, jogando ao corredor e ao visitante uma baforada de tabaco fedorento. Diante de insurdecedores latidos atrás da porta entreaberta pelo ferrolho, parecia que chegava em um canil de luxo escondido naquele apartamento. O fedor de tabaco podre, aos poucos foi sendo substituído pela mistura desagradável de cheiros: cosméticos femininos e caninos, urinas ardidas que pareciam que entravam no cérebro sem muita dificuldade. Atônito permaneci, sem palavras para retribuir a atenção que a singela senhora me dispensava. Da fresta da porta, duas cabeças de pequenos cachorros esganiçavam desesperadamente. Entre “los perros pequeños” e o rosto da esquálida mulher, o focinho horroroso de um desconhecido rosnava ameaçadoramente. Checada a minha procedência com a porta aferrolhada, minha anfitriã some, e com ela toda turma barulhenta. O barulho continua, porém contido. Tirando o ferrolho e carinhosamente me convidando para entrar, a gentil senhora pede desculpas pelos transtornos da sala desarrumada, comenta amenidades, como a idade dos cachorros; sobre a vizinha desumana e solitária do andar de baixo, que reclama dos latidos durante o dia, pois “meus filhotes não latem depois do por do sol, adestro-os desde bem pequenos”. Entre tantos assuntos que desorganizadamente debulhavam da boca da pobre mulher, um eu não consigo deixar de pensar até agora, o qual me instigou fazer este registro: na época gastava em torno de C$ 1.300,00 reais por mês com sua “família”. Neste total estava incluído o veterinário, a moça que lhe ajudava a passear com a turma, a alimentação e vestimentas conforme a estação do ano. Gentilmente ofereceu-me café, que com o corpo gelado, aceitei. Ao levar a xícara à boca, vi pêlos minúsculos de cachorro por toda sua borda. Fechei os olhos e o paladar, bebendo de um só gole.
Não tinha visto tudo. Ou melhor, vivenciado. A gentil senhora entre torrentes de palavras – parecia ter estocado a mesma quantidade de jornais e de assuntos – abriu a porta de um dos quartos, e para minha surpresa, algo horroroso estava diante de mim: o quarto todo era tomado de uma camada de 40 cm de jornais imundos e de um fedor de urina inacreditável. Entre tantos assuntos falou-me que tinha chamado o Profetas para levar o jornal por que tinha por costume esvaziar a sala de 2 em 2 meses. Perguntei por que motivo deixava tanto tempo, respondeu-me que tinha medo de abrir seu apartamento com frequência a um papeleiro que a dois anos fazia a coleta e segundo ela tinha deixado de fazer. Sem saber porque não aparecia, convocou-nos.
Assim começa a dura empreitada, de descer do terceiro andar com blocos de jornal apodrecido de urina, superlotando o velho e guerreiro fusca. Na volta, para o segundo carregamento, o cheiro continuava forte, mas me surpreendi que o silêncio era total. Fui informado que comiam e para minha surpresa, comiam no quarto da gentil senhora. Desta vez ofereceu-me bolo de cenoura, com cobertura de chocolate que gentilmente agradeci, imaginando que naquela lâmina de chocolate estavam escondido milhões de finíssimos pêlos. Falou-me que a doação periódica de jornal - apodrecido de excremento - era uma forma de ajudar a quem estava precisando. E insistiu diversas vezes que o mundo seria bem melhor se todos fizessem a sua parte, e as autoridades da saúde fossem mais responsáveis e cuidassem melhor do planejamento familiar.
Gentilmente pediu-me que voltasse todos os meses e na saída presenteou-me com um saco de roupas usadas para distribuir aos trabalhadores do galpão. Alguns dias depois descobri que muitas das roupas “que muito pouco usei” tinham sido juntamente com os jornais, cama para seus pimpolhos.
Saí desesperado em busca de vento puro e sol, pois fui contaminado por aquele ambiente desolador. Vários dias depois, ao lembrar do acontecimento, o cheiro voltava com uma intensidade inacreditável. A pobre mulher aposentada à 15 anos encontrava em seus companheirinhos a força para continuar vivendo, sua solitária vida. Os filhos o abandonaram a muitos anos. Segundo ela todos estudaram muito, estavam fora do Brasil. Ganhavam muito bem. De tanto que estudaram esqueceram-se da mãe. Em sua torrente de palavras, me contou coisas incríveis: como o paladar diferente de cada um dos cachorros, como eles retribuíam seus momentos de tristeza ou alegria. Alguns pareciam-se muito com ela, por exemplo em reações coléricas diante da frustração, do não desejado, do desconhecido... Não canso de me perguntar nas motivações que levaram dona Zezé a fazer aquela opção na vida. Porque alguns optaram em adotar cachorros ao invés de crianças? Porque alguns sorridentemente vivem a vida e outros tristonhos palmilham a vida até emudecerem. Pensei na crueldade que move alguns e na doçura que move outros tantos. Os duzentos mil milionários que nosso país engorda, de que jeito eles vivem, quais são suas conversas, seus desejos e o que passa no coração, no silêncio solitário da alma? Mattéi, filósofo francês refletindo uma vez sobre a barbárie humana faz a reflexão do i-mundo do mundo moderno. A i-mundice do mundo fragmentado em que vivemos, criou a formula necessária para a formação de um homem anestesiado na sua dissecação. Realidade tensa no dizer de Milton Santos. O indivíduo se dilui no coletivo/massa construído fora de mim, sem a minha participação, por desconhecido poder fazedor. Faz-se o corpo bonito, aperfeiçou-se a suavidades nas simetrias, mas o nó da solidão humana não desatou. Na massificação, da moda e da cultura, além de empobrecer a estética, oferece-se uma falsa aparência de segurança dum ego solitário. Quando um se movimenta, a partir de um comando, movimentam-se todos, com o mesmo dins, a mesma tinta no cabelo, o mesmo brinco, todos teleguiados por um poder sem rosto, sem pátria, sem alma...
Dona Zezé me provocou o pensar. Lembrei-me da Caverna Platônica. Dei-me conta da ilusão da qual estamos imersos. Enquanto tudo parece avançar, continuamos atormentados pela divisão. Divisão do Ser. É melhor dialogar com os animais, do que com seus iguais. O outro é o problema. Um problema insolúvel. Melhor não mexer. Aqui fico eu com meus gatos, meus cachorros...
Nunca mais soube de dona Zezé, mas sempre que dela me lembro, me pergunto, se como num romance de Kafka, ela não acabou fundindo-se à eles, “seus companheirinhos”, comendo suas comidas, dormitando e com eles sonhando, fazendo consultas ao veterinário... Será que ela já não era um deles e eu equivocadamente não pude ver?



Pedro Figueiredo
Agosto de 2007

17 de mar. de 2009




Os ossos do Juvenal



Isto aconteceu já faz tempo. Nos tempos de nossa juventude. Tempos em que tínhamos a certeza que faltava muito pouco para fazermos a revolução; onde as pessoas e o mundo seriam transformados em um ninho de justiça e de alegria. Numa sexta-feira a noite, dois meninos esbaforidos invadiram nossa casa. De tão cansados eles não conseguiam falar. Depois de tomar água, e muita insistência nossa para que se acalmassem, começaram: “vai lá em nossa casa, o diabo entrou no corpo do nosso pai. Vamos lá, vamos lá...”.
Por becos escuros saímos também esbaforidos. Empurrados por um misto de ansiedade e curiosidade, corríamos na direção da dita casa onde o demônio resolveu fazer sua morada. Muita gente na frente. Como os barracos estavam um quase em cima dos outros, todo mundo aglomerou-se em frente da moradia sinistra. Deixaram suas casas, seus afazeres de um rotineira noite de sexta-feira: as carnes graxozas já cheiravam queimadas, mistura de sons sertanejos variados, mulheres no meio de suas maquiagens, alvoroçavam-se em disparatados comentários, sem falar na cachorrada que desinquietas, circulavam entre as pernas dos curiosos assistentes.
Urros satânicos eram ouvidos já de longe. Os comentários ao longo do beco que percorríamos com certa dificuldade, eram variados: Um velho de barba mal feita contava acontecimentos semelhantes, de gente que uma vez “possuídos” das orelhas vertiam sangue, e que em contato com a terra transformavam-se em líquidos mal cheirosos, afirmava de forma categórica ser o cheiro do diabo: o puro cheiro do enxofre. As crianças, bem, as crianças faziam a festa! Confesso que não vi em nenhum daqueles olhinhos sinais de apavoramento.
Quando entramos na sala, sem exagero, estava totalmente lotada. Os urros vinham do quarto, separada da sala por lençol. A cozinha era uma pequena varanda e parecia que a porta era feita de muitas cabeças, todas de mulheres alvorotadas.
Enfim, entramos no quarto. A cena era inacreditável. As pessoas soavam, pelo excesso de calor, os cabelos colavam ao rosto de mulheres que circundavam ao redor da cama. Um homem, relativamente gordo, de pele morena, encontrava-se de calção, atado pelas mãos e pés. Com pernas e braços abertos amarrados, tomava conta da cama toda. A frágil cama de madeira era golpeada, com o que restava do corpo solto. Uma espécie de transe começou a tomar conta de mim. Tinha uma sensação de que estava sonhando, ou flutuando. Não podia ser verdade. Aos pés da cama, um mulher jogava sal no pobre corpo, e sua boca estava cheia de “colas de lagarto” para uns, ou “espadas de São Jorge” para outros. Da boca diabólica vertia uma espécie de espuma, esverdeada pela plantas invasoras.
Recompondo o primeiro impacto, pedi silêncio. O silêncio prontamente aconteceu. Peguei das mãos da mulher o frasco que dele era jogado o sal. Num daqueles lances de espírito que nunca se saberá de onde sai, comecei a jogar sal pela cabeça da população que habitava aquele pobre quarto. Lembro que algumas mulheres se benziam com o sinal da cruz. Pedi para uma mulher que passava álcool em seus braços que tirasse as plantas daquela pobre e dilacerada boca. Assim foi feito. O silêncio se fez total por parte das participantes/assistentes. Somente o corpo amarrado e o ringir da velha cama ainda não se aquietavam. Pedi para que todos dessem as mãos e rezássemos um Pai Nosso. Confesso que foi o mais fervoroso Pai-Nosso que já ouvi rezado. Pedi calmamente que o desatassem. Alguém retrucou com medo que se suicidaria. Me deu medo. Confiante, novamente pedi. Não aconteceria nada, tinha muita gente em volta da cama, da casa, no beco. Desamarrado lentamente foi. De repente o homem deu um pulo na cama, e sai caminhando cabisbaixo como quem procura alguma coisa em direção a porta da rua. Uma vez no pátio, pelo portãozinho de madeira tomava o beco, e como num corredor polonês, olhares tristonhos e curiosos o espreitavam. Ele não falava, caminhava entre luzes e sombras, parecia que olhava os rostos e o chão, sem vê-los.
Terminado o cordão de assistência, começou a correr. Correu desesperadamente gesticulando os braços freneticamente. E lá fomos nós, muitos de nós, novamente correndo atrás do atormentado homem. Ele corria, como que não sabe para onde vai e nós também. Corríamos. Tomou a direção do cemitério dos pobres da Santa Casa, do qual se falavam estórias de coisas nunca vistas. Com certeza nunca vistas mesmo.
Ao chegar em frente do portão gigante, tentou subir, e não conseguiu. Tirou do pescoço um cordão e joga para dentro do cemitério. Escalou, finalmente, o muro ao lado de mais de dois metros de altura. Enquanto gritava coisa que não se entendia, escalamos também, restando apenas três dos nossos no chão. Uma vez no topo, olhando aquela imensidão de cruzes silenciosas, como que desencantados, empreendemos a difícil descida. O homem senta no chão e começa um choro convulsivo. Aos poucos se refaz. O necessário silencio se fez. Calmamente começou falar. A falar como alguém que não tem ninguém a sua frente.
Juvenal, seu velho pai veio para cidade grande junto com o último filho dos quatro que já estavam na capital. Antes de morrer pediu que não o deixasse sepultado longe da sua família, de seu povo na pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Quando da data de seu falecimento, os filhos todos muito pobres, não tiveram condições de sepultarem o pai como lhes havia pedido. Quando completou-se o tempo para transladar os restos mortais do velho Juvenal, voltaram ao cemitério para uma segunda tentativa. Chegaram a conclusão que não teriam condições novamente. Alem da dor de todos estes movimentos impotentes, era muito caro os gastos com o cemitério, e emperrava numa burocracia inacreditável. Assim começava a segunda parte da história. Em conversa com amigos, os filhos foram informados que subornando o coveiro, era possível resgatar o que restava do corpo do pobre Juvenal. Assim foi feito. Rateio suado, pagaram o coveiro corrupto, e a mala foi deixada no lugar e na noite combinada. Entretanto, na madrugada quente daquele verão malandro, como acertado foi, a mala, com os ossos do velho Juvenal lá não se encontravam. Misteriosamente desapareceram, ou nunca lá foram colocados.
Naquela sexta feira, depois da tradicional cachacinha de final de tarde, ao homem moreno, de calção e levemente gordo, apareceu o velho Juvenal, dizendo a ele que jamais descansaria longe de sua gente e de seu pobre povo. Ao pobre e coitado filho imputou-se , a culpa da tragédia cultural de uma geração miserável, desgarrada da terra, vivida no lamacento chão das periferias de nossa capital, e enterrados em valas comuns, longe de seus entes queridos.


Pedro Figueiredo
Setembro 2008